(Opinião) As demolições na antiga panificadora de Vila Real




Anabela Quelhas recorreu à rede social Facebook para expressar a sua opinião sobre as alegadas demolições "ilegais" na antiga panificadora de Vila Real.





AGORA É TARDE
Estava a 1000km de Vila Real e recebo três sms com a notícia da demolição da panificadora, e mensagens respectivas:
1 – Sem comentários
2 – Olha para isto!!! Quelhas, não fazes nada?
3 – Professora, perdemos a luta, rebentaram com a panificadora, não serviu de nada o trabalho que fizemos na escola.
Nem sei o que devo dizer/escrever e não ouso partilhar o que já me passou pelo pensamento.
Sinto-me triste.
Vila Real acaba de perder um edifício com algum valor arquitectónico e a culpa não é de ninguém, dizem. Nunca ninguém tem culpa de nada. Dizem que a culpa morre sempre solteira.
Se alguém pensa que um edifício de apartamentos será um ponto de atração para forasteiros virem visitar à cidade….
Se alguém pensa que um caixote qualquer pode gerar orgulho nos habitantes desta cidade…
Se alguém pensa que uma máquina a derrubar paredes dará brilho à nossa identidade…
….tstststst desenganem-se.
Não culpo o proprietário do edifício, seja um tal senhor da Régua ou seja a cadeia dos supermercados LIDL, ou seja quem for…. Até admiro a sua paciência e tolerância pela indefinição que certamente rodeia este investimento.
Sinto-me triste pela inercia das instituições, pelo “deixa andar” ao longo de 20 anos, dos que gerem a nossa cultura e o nosso património, … mesmo sem dinheiro é possível fazer tanta coisa, entre as quais classificar, proteger, legislar e informar.
Não deveriam ser os cidadãos a propor a integração de determinado edifício como património, o IPPAR, a Secretaria de Estado da Cultura, as Câmaras Municipais e Juntas de freguesia, deveriam ter os seus territórios inventariados, evitando a revolta e a indignação dos cidadãos. As instituições estão cheias de arquitectos, engenheiros, economistas e a fina flor do conhecimento, e o q fazem?
Sabem, fico triste porque o Pioledo já não existe, os SLAT também não, a casinha dos azulejos da rua Visconde de Carnaxide cedeu espaço para a rotunda, a tasca do alemão fechou, o Excelssior eclipsou-se, o jardim da avenida foi decepado, os brasões estão esquecidos nas bordas de um jardim… Sabem, fico triste, porque a seguir, serão as adufas que irão apodrecer, será a varanda renascentista que se irá desmontar, serão os brasões que irão perecendo em nome do progresso. Um dia cairá o coreto do jardim da carreira, o jardim será transformado em parque de estacionamento, o telhado da igreja de S. Dinis ruirá completamente, já ninguém saberá do Espadeiro e a casa de Diogo Cão passará a ter um chinês na máquina registadora. Nesse dia o Carvalho Araújo fará um manguito a esta cidade. Somos pobres, cada vez mais pobres, com a mania que somos os maiores.
Isto representa trinta anos de sucessivas asneiras e perdas.
Ah mas temos um LiDL, um Continente, um Shoping, um MacDonald, um teatro, um museu, rotundas e edifícios gigantescos que parecem caixotes fatiados, que tanto poderiam estar aqui como em qualquer ponto do planeta.
“Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC) abriu agora o processo de forma “a impedir danos continuados no imóvel em vias de classificação”, informou este organismo, que considerou que o edifício está em risco.”
https://www.publico.pt/2017/04/11/local/noticia/demolicoes-ilegais-aceleram-candidatura-edificio-de-nadir-afonso-a-imovel-de-interesse-publico-1768483
AGORA É TARDE!!!!!
Sinto-me triste… uma tristeza que engloba dezenas de alunos, respectivas famílias, e alguns Vila-Realenses que acompanharam toda a tentativa de preservar o edifício.
- Bruno, confirmo, perdemos a luta, não serviu de nada o nosso empenho e trabalho.
- … e não faço nada, já fiz a minha parte e há um registo na net para quem quiser consultar.
http://espacillimite.blogs.sapo.pt/312049.html
http://nadirvilareal.blogspot.pt/
Copio a parte final da minha acção (9/06/2014)
Avaliação
Este foi um tema muito oportuno para levar os alunos a pensar na sua cidade, despertando as suas consciências como cidadãos críticos e intervenientes e ampliando os seus conhecimentos culturais e estéticos.
Lancei este tema sem antecipar que seria desenvolvido em simultâneo com o desaparecimento do grande artista plástico. Tive o privilégio de provocar ainda os últimos sorrisos de Nadir ao comunicar-lhe o entusiasmo que rodeava este projeto de trabalho.
A minha tarefa termina aqui.
Relembrei à população de Vila Real, como é necessário estar atenta para conservar o seu património, divulguei a obra de Nadir Afonso e solicitei à Câmara Municipal a classificação da panificadora de Vila Real.
Fica aqui o registo de toda a dinâmica realizada.
Bem hajam a todos

Anabela Quelhas

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